Pesquisar este blog

quarta-feira, 11 de julho de 2012

CASSANDRA ou Elegia a Mentira

Os deuses não perdoam a beleza.Nem a verdade.O tempo implacavél vêm com suas garras de bestas arranhar as faces humanas com rugas e sinais de expressão.Em alguns rostos,resiste bravamente a dignidade.Em outros, a piada farsesca da juventude eterna. Já a verdade, sofre duplamente: se a mentira pode prosperar ainda que por pouco tempo, a verdade dificilmente terá a paz que sua antagonista pode gozar.
Nenhum deles , humanos vaidosos,porém pereceu o que Cassandra viveu. A beleza lhe tirou algo que nos dias atuais, em particular em certo país abaixo da linha do Equador, se torna cada vez menos valorizado, admirado, respeitado.É tido até como estranho, fora do normal. E como não haveria de ser ao vivermos numa terra de feudais senhores estatais?
Levaram dela a Honra. Não simplesmente lhe tiraram a virgindade, maltraram seu nome.Não:coisas assim são singelas até inocentes demais para o repertório de crueldades da imaginação mítico-antropológica grega.Antes de mais nada,é preciso dizer que Cassandra era um Oráculo, uma humana intermediária entre a vontade dos deuses e desejos dos homens, capaz de prever o futuro.Sempre que vaticinava sobre o destino, suas palavras se tornavam ações.Era temida mais que as guerras e as aves de mau-agouro.Porém,nascera com um "defeito" imperdoável a vaidade teofeminina: Era em sua época a mais bela das mulheres.Mais bela,inclusive que a deusa dos oráculos:Parla-Athenas.
Vanitas,vanitatum,vanitas: assim ela seria amaldiçoada.Como protegida de Apollo,senhor dos oráculos e do sol,ela não perderia seus dons premonitórios.Pelo contrário:ela iria prever unicamente tragédias,entretanto, suas palavras nunca seriam escutadas,nunca seriam acreditadas. Pela sua boca, a verdade passaria a ser mentira.E a mentira mais verdadeira que a verdade.Porém mesmo a mentira vinda de seus lábios teriam tanto valor quanto sua verdade.Ou seja,nenhum.
Alguns dirão que poderiam ouvir as mais terríveis palavras desde que vindas dos belos lábios da verdade.Não creio nisso. Por mais belas que fossem,não somos animais feitos para a verdade.Já foi dito por uma dessas sumidades intelectuais-pop que todo mundo cita mas que não sabem o nome, que se a sociedade adotasse a verdade como linha mestra de suas ações, a sociedade se desintegraria sobre o peso de suas próprias contradições.A mentira é necessária a vida.A vida social,meu bem.
Atire a primeira pedra quem em algum momento nunca foi uma pessoa dita "falsa".É possível distinguir ao longe as pedras que virão lapidar a Maria Madalena sem Jesus para salvar.Todos se diram honestos,intégros,verdadeiros. Acima de qualquer julgamento.Tal como os grandes corruptores de Brasília, do Senado de Roma ou do Templo de Jerusalém. Irão mentir a si mesmo,ao garantir que seu peso não corresponde as medidas.De que,os dois pesos,e duas medidas suas,não são aceitas universalmente pelo sistema internacional de pesos e medidas.
É um mundo ordinário,confesso eu.Entre a verdade e a beleza, o mito de Cassandra nos diz que é impossível conciliar as duas num mesmo espaço.É Deus ou Mamon:Ou se apegará demais a um desprezará o outro,ou o inverso.Não se pode amar a dois senhores.Não se pode viver um mundo de beleza totalmente imerso em sinceridade.E não,há ironia é apenas uma forma bem menor de verdade,uma tentativa falha e covarde de se dizer a verdade sem a dizer de fato.
Com todas as palavras, somos Cassandras.Sem a beleza do óraculo,apenas com o descrédito das mentiras...
...mas você não acreditaria em mim,pois eu sou Cassandra,e tudo que digo,são apenas mentiras saídas de belos e hipnóticos lábios.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

GAIO IULIUS CAESER

23.Foi exatamente essa conta,nem mais,nem menos que isso.Apenas uma só bem dada,temperada de ódio bastava.Mas, era necessário mais para entrar na história e tornar um ser humano comum,num desses ícones de orgulho da cultura ocidental. Saiu da vida para entrar na história, saiu da humanidade para erguer-se em martír de um sonho, de um ideal.Muito maior do que a pequena e acanhada Res publica do monte palatino ao qual dizia representar, superior aos mesquinhos interesses assassinos do corrupto Senado que viriam lhe matar, mais sedutor que os olhos da egípcia amante que resguardava para si.Esse era o seu nome e orgulho:Gaio Iulius Caeser.
Caeser.Kaiser.Czar. Foram alguns nomes de quem se arvorou de um sonho, de uma idéia, para dela se tornar imortal.Foi preciso um assassinato,para que tantos nomes,além dos já conhecidos e citados anteriormente, surgissem. Necessário que houvesse os idos de março.Que eles viessem.E que passassem,no encontro do orgulho contra o destino.Fortuna, a deusa da sorte e do caos dos latinos era bem vóluvel,no entanto, ao seu preferido,nunca deixou de avisá-lo sobre os riscos ao qual se aventurava.Ele,como orgulhoso menino,ignorou a todos.Via,vinha e vencia.Atravessava um rio Rubicão de medos e expectativas,e conquistava uma cidadela romana dia após dia, guerra após guerra, pão após pão,ditadura após ditadura.Mesmo assim,não era o bastante para ele ser feliz.
Era um dia de sol.Era um dia de glória.E foi de repente,tão de repente,quanto o término de um sonho tão bom.Quanto o fim de seis anos de amor.Quanto o fim de seis meses de paixão.Nas ruas ainda cheias de poeira e lama, que sujavam a barra branca do seu manto,escudado por uma peça vermelha a atravessar latitudinalmente seu corpo caucasiano e queimado de anos de mediterrânicos sóis,ele, tal como a águia dourada que simbolizava a sua urbe e exército, andava aquele senhor de menos de 60 anos mas precocemente calvo e envelhecido pelas glórias que sua cabeça sustentava na forma de uma coroa de louros dourada,tal como os antigos campeões da Antiga Hélade Mítica,dominada agora por seu Imperium, como sempre fez: Face erguida,olhos fortes e magnéticos,acompanhados das aclamações populares de "Ave Caeser!".
Foi então que de repente, ele foi lembrado de que era humano,demasiado humano.Nunca saberemos o que ia no coração do homem que tão pouco deixou-se dominar.Certo,jamais se dominou.Anseava dominar,ter,possuir.Amar.Foi assim,que mesmo casado, enamorava-se abertamente de uma rainha africana cuja beleza permanece um mistério aos ocidentes.Foi assim,que contraditoriamente,mesmo com o escândalo invadindo sua casa,dizia a sua esposa "Não basta a mulher de César ser honesta,ela tem que parecer honesta". E assim,no humilhante silêncio,a mulher de César se calava. Era dessa forma que mesmo sem filhos,adotara como seu Brutus e Gaio Otavianus, o primeiro adotivo e o segundo sobrinho.. Submetia Senado e Marcus Antonius. E foi dessa forma,que ele descobriu que havia Deus.Ou deuses.Melhor dizer,destino.Em outras palavras,a morte.
Não seria diferente que fosse assim: Haveria de ser uma mulher, apenas esse sexo tido como frágil, a responsável a lembrar de que tudo que é sólido se desmancha no ar, como diria muitos séculos depois um judeu de nome Karl Marx.Do seu passado,não se sabe nada a respeito de tal mulher.Apenas foi mais uma figurante da imensa fila de seres humanos que a História dita oficial não registrou.Entre aqueles humanos no qual anjo da História Clio não conseguiu salvar, coube a ela a responsabilidade de matar Caeser.
Nas escadarias do Senado,feitas de mármore branco,ela surge e interronpendo a marcha do orgulho em pessoa prediz:"-Os idos de março passarão!". Ao mesmo tempo,ele,Gaio Iulius Ceaser, senhor de si mesmo, acostumado a submeter deuses,homens e terras.A jamais ceder, nem ao amor, nem ao ódio, responde na mesma e direta forma que o caracterizou.Talvez sem baixar seu olhar,talvez a penetrando os olhos da vestal com sua face de águia dourada,responde:"-Entretanto,eles ainda não passaram!".E assim,um dialogo que não deve ter durado mais do que dois minutos se encerrou para sempre.E Ceaser foi ao matadouro.
Entrando,sentara-se no trono em que sempre esteve, no centro,com o universo de orgulhos ao seu redor. Como o sol,sozinho na imensidão de homens.Um senador se levanta e propõem uma questão de cunho pessoal,ao qual recebe a negativa.Era o sinal daqueles que buscavam salvar Roma de seu destino.Então Brutus,o filho adotivo se levanta e se aproxima de seu pai.O abraça,e com o amor,o apunhala pelas costas.A sua surpresa,a sua dor, ficaria eternizadas na singela frase de pai a quem viu o amor morrer em um único golpe:"-Até tu Brutus,até tu me traistes!".
O primeiro golpe foi o que doeu mais.Creio nisso,pois os 22 restantes já deveriam ser esperados.Enquanto ele era apunhalado pelos homens que diziam representar o povo,que deviam salvar o povo,ele apenas teve o vislumbre,se tiver tido,daquele exato momento,que ele foi avisado de que se continuasse por aquele caminho,em algum momento,seria abandonado por todos,e apunhalado pelas costas.Justamente,pelas mãos de quem mais amou.Pelas costas,a lâmina do amor,tirou o véu cegante do seu orgulho e revelou o homem.
Agora,é apenas mais um corpo estendido ao chão.Em seus funerais,a plebe revoltada fará do seu jeito a pira funerária ao homem que era o rosto de Roma.Assim,ele seria eternizado pelo povo ao qual mal via como objeto de manipulação,e que no entanto lhe votava sincero..amor. Dos fatos futuros,deixemos Marcus Antonius e Gaiu Otavianus cuidarem entre si. Em julho,mês criado por Otavianus Augustus, primeiro ceaser do Império Romano,em homenagem ao seu tio,fica a mensagem escrita no tempo e nos punhais para o ditador e general romano:

O seu Orgulho,por maior que seja, um dia será assassinado pelo seu maior Amor.

Ave Caeser!

terça-feira, 26 de junho de 2012

Lindo e Triste


Quando Deus criou o homem,Ele também criou a solidão. A solidão é do homem e de nenhum ser da criação a mais.Somos essencialmente egoístas quanto a isso. E disso não abrimos mão. Quando o primeiro homem se deu conta de que estava só, com seres que em nada entendiam a sua pouca voz. sem poder se comunicar,com a verborragia da animalia ao nascente, e o silêncio das bestas ao poente, ele então sentou e chorou.E essa foi o primeiro choro de um homem.
O homem durmiu.E durante a noite, forte dor o havia acometido.Sem sua permissão,sem o seu querer,seu corpo foi invadido.Ele que não havia pedido para existir,dividia-se em mais um ser.Dizem que a dor de fato não existiu,mas como medir a dor psicológica de uma ausência?Quando acordou,ele sabia,sem poder exprimir que algo de muito íntimo lhe havia sido retirado.Ao seu lado,na noite,estava durmindo a primeira virgem,e quando ela abriu os olhos,assustou-se com o que viu.Ele também,e com um gesto ao mesmo tempo,delicado e bruto a tocou...quando viu que era bom,a quis possuir como numa quarta-feira de cinzas.Ela se debatia,chorava,sentia o medo,o terror,por fim se rendeu.Assim nasceu o primeiro estupro.
Ela fugiu noite adentro,sem saber o que era, sangrando entre as pernas,na floresta selvagem e escura.Antes de fugir contudo deixará nele uma horrível cicatriz com suas unhas,quando ele acreditava tê-la subjugada.Ele gritara de ódio,a estapeará.Ele se armou,ia matá-la.Então ela correu,correu,numa clareira se escondeu,e sem ninguém ver..chorou,chorou.E toda vez que ouvia a voz daquele ser,com sua barba desgrenhada,suas vergonhas expostas,ela chorava mais e mais.Então ela se viu só.E só se tornou.Nos primeiros dias,aprendeu a viver com isso: a caçar,pescar...mas estava só.E mesmo com toda a dor,ainda pensava no primeiro ser que a tocou,no seu cheiro de almíscar,no gosto do sal,na língua que a invadia...sem se perceber ela se tocou,e sentiu tanto prazer,que desmaiada ficou.Queria encontrar de novo a sensação que não pode nomear.E resolveu o primeiro homem caçar.Nasceu o primeiro orgasmo,filha da dor.
Ela o encontrou.Estava armado,bruto ameaçador.Ela também.Não haveria como saber: Então se jogaram um no outro se engalfinharam,e nos movimentos de violência,o prazer surgiu de novo,dessa vez em conjunto.Ele havia e muito se tocado pensando em tudo aquilo,e de novo tudo lhe pertencia.Da violência,se fez gozo.Do gozo se fez orgasmo,do orgasmo se fez sentimento.E do primeiro estupro,se fez o primeiro amor.
Do amor se fez a novidade,da novidade o tédio,do tédio a conveniência.Não era preciso mais esforço o prazer estava a mão,o homem não precisava mais se preocupar,se apaixonar,sentir amor.Então o homem se tornou frio,ocupados com outras coisas,e nos fins de semana,quando Deus descansava,fazia suas necessidades carnais,a dispensava, e ela sozinha retornava a mesma solidão que antes,mas ela se viciara naquilo,na companhia,ela queria aquilo,não tinha a quem recorrer...se houvesse uma semelhante como ela,teria amado-a,mas ele era o diferente,aquele que por mais que se esforçasse não o compreendia. Da incompressão feminina se fez o primeiro machista.
E do primeiro machista se fez o primeiro canalha. Foi ai então que ela percebeu, o seu pecado orignal, e assim o que era paraíso se perdeu: O homem a fez dela amante,não mulher. Não a respeitava como igual,menos ainda que as bestas.O homem era volúvel,mesquinho,egoísta.O homem amava mas do carinho que viciava queria distância,a coincidência dos sentires era um instante de brilho de estrelas mortas. O homem era lobo do homem, e a mulher seria a serpente do homem.Então ela quis se afastar,se desfazer desse fardo,da humilhação. E assim ocorreu a expulsão do paraíso,a primeira separação.
Veio a dor,da dor veio o parto,do parto veio uma nova geração de frustrados,renegados,desesperados pelo amor original que se perdeu. Do primeiro Abel, tentou a fé até não ser escutado.Do outro Caim,de cíumes de um pai do qual não podia ver e ser compreendido,querendo um incestuoso amor do filho do primeiro homem,não o tendo em vida o consumou em morte.E assim,de novo,o homem é expulso de novo de seu lar.Da dor se fez o primeiro parto,dele se fez o cíume, e do cíume inventou-se a morte.
...E assim caminha a humanidade.

domingo, 24 de junho de 2012

Para aqueles que nunca nos lerão

Havia no teto do quarto escuro uma constelação ardente.Na escuridão, se tornava mais evidente,a luz do dia apagava-se.Quando na posição de observador, nos raros momentos que havia essas amantes inversões de "quem só entende quem namora",sabe explicar, o espectador poderia contemplar o que em seus quadris se movia e o que logo acima dele, se a visão o permitisse, o escorpião mal-feito,apagado, mas honestamente tentado, por teimosos anos de retalhos,amores imperfeitos,pretéritos,e sujeitos.
Agora,não há mais costelação de escorpiãono teto do meu quarto. E mesmo insisstente,não há mais volta dos impróperios e rangeres de dentes proferidos por delirantes vícios. Só a lembrança do sonho que poderia ter sido,e não foi.Assim,são os olhos de quem nunca leria um texto como esse que meus dedos dizem ser meu,e que ao sairem de minha mente madrugada galopada a dentro,não me pertencem mais.
Deveria ser facil:Temos signos zodiacais,psicologias e filosofias, poetas e poesias, danças e fantasias, possuímos linguagens não verbais,alfabetos,telecomunicações,idiomas,territórios em comum. Porém para aquele que amou,nada disso traduz o que o amor que jaz morto quer dizer no peito. Não há nada que possa ser feito.Deixai os mortos o cuidado de enterrarem seus mortos. No entanto, há desses cadáveres cujas fantasmagóricas memórias e sentimentos são tão queridos,que como dizer não a eles?Sobrevivem,mesmo quando clamamos a noite que fujam para a floresta,que se refugiem em cavernas, que se joguem em abismos e fossos.São aqueles que nunca nos lerão,a quem dedicamos esse texto.
Há um dever implicíto na mensagem:Ser o mais claro e objetiva possível. Direto.Sem subterfúgios.Como um naufrágo sujo e moribundo, se envia ao infomar mensagens em pequenos posts engarrafados de fragéis pedidos: Me entenda, me resgata, me ama, sinto sua falta, você me sufoca, não esperarei mais, não desistirei de esperar,eu te amo,eu te odeio,a mão que agora escarro será a mesma que embalará o meu cinico berço.Que desconfortavelmente, o corpo negro,envolto numa crisálida branca na iminência de se partir, tenta gritar e não consegue.Do lado a insônia,do outro um coração partido. Cristo,no meio dos dois ladrões do sono da madrugada.
Mas,elas não param.Atormentam,pedem perdão.Perdão a quem?Pelo quê?Quando os rogos do cristão da capela se tornam repetidos,o mesmo esquece na sua ladainha porque pede. O cordeiro de Deus,que tirai os pecados do mundo,mais uma vez,tende piedade de nós.De nós atados,dos filmes bíblicos assistidos,das atuações de Marlon Brando, Robert de Niro e Al Pacino, das pizzas, das cigarrilhas, da água fria jogada na cara,das brigas em casa,dos cíumes, dos olhos verdes, da falta de privacidade,da opressiva hospitalidade.Do amor.
Que amor?O da I epístola de S.Paulo aos Coríntios,cáp.13:35?O do soneto de Luiz Vaz de Camões?O do barroco pós-punk romantismo de Renato Manfredinni Júnior?O do Samurai de Djavan?Os pequenos textículos de Lispector , Caio Fernando Abreu e Nietzsche? Shakespeare?Lá fora,é dia de fogos,aqui dentro é apenas frio. E na barriga de quem distante não diviso,viro menino,incerto,como as curvas das estradas da Paraíba.Mais distante fica Teresina.Um pouco antes,a Fortaleza guarda meu vermelho guia.E além disso,no Maranhão,a imperatriz e o caxias.No céu,apenas uma lua feminina,phoenix noturna,silenciosa,metamorfa,com o pálido brilho sobre os lobos tristes.
Então,tudo se explode em raivas,malícias,manipulações,intrigas.Onde está,onde irás,meu pensamento?Nas decisões que só eu posso tomar,me perco no Recife Antigo cercado por bares,cujos olhos agressivamente sexuais ferem e se oferecem ao corpo que anda distraído.Conduzem a carros,becos escuros,beijos,sarros,sussuros.Para serem arrancados a força,por semitas savonarolas,que proclamam,não serem suficientes para seus egos a figura que tem como concorrente.Alcoólicos anônimos,velhos conhecidos.Assim,é a constelação e seu luar inimigo.
Quando começou tudo isso?Com sorriso em rictos,desesperos pelo badalar dos sinos da igreja da Boa Viagem, pelos pesados poderes negros de um homem de X puxados como aquele,acima do bem e do mal.Havia ciganas,exus,luciferes,tranca-ruas,e todos aqueles nomes que os crentes púdicos temem falar em público.O baralho estava na mesa...jogue: cruz celta, três lâminas...O tarot de Marselha,de Espanha,de Thoty e de todas as ciganas.Me seduziram,me prendiam,em leques que não soltavam ventos,em incensos,pedras,e olhos cor de mel escondidos em lentes azuis ou verdes.
Era aniversário,e um homem atacou.Foi num banheiro,um ensaio.Resposta rápida,defendeu-se do agressor.Virou boato.Escondido,sussurado.Afastado,agora escuta o que ficou calado.Duas versões,dois fatos.Um tapa na cara de quem um dia foi amado,lágrimas madrugada adentro,gritos de Édipo Rei,esquizofrênicos rebelados,policiais armados, homens desarmados,entregue a lei de Safo.Vai,não peques mais...acabou tudo,pegue o taxi,vá está atrasado,o coelho grita.Corra,Alice,corra.
Era para ser o chapeleiro louco,mas a rainha de Copas tinha medo,pasmém,de que cortassem sua cabeça,e assim irmão não conhece irmão,amigo não conhece amigo,e a matriarca espera silenciosa os gritos do seu filho.Uma vigília inteira,noite de bebedeira,e acabou tudo contigo.
Não pode ser:Não é silêncio,não é o que se quer ouvir.Perseguição,dias de solidão,viagem pra velar o irmão.Ironia da onde vem o olhar e o abraço de perdão: Não deixa de ser estranho a quem tanto se matou agora estende a mão,aliviado das penas,a quem de algoz virou membro da prisão.Abraço,Alice se perdeu e se encontrou.Fotos.Dois anos de espera.E como a negra que se envolve em cobertas brancas,uma flor de fuxico sai da crisálida como uma mariposa santa em fundo púrpura.Fica bem nos seus cabelos,e nas suas roupas,menina lúcida.
É a torre.É a foice.É o monte castelo.É o reencontro cármico.É um texto sem pé nem cabeça.É um sátiro.Bicho de Sete-Cabeças.Enquanto os insones dormem,o lobo mantém vermelhos olhos cheios de areia,na inglória luta contra o deus do sono.E ao fim do texto,na certeza que tantos aforismos,pleonasmos,metafóras,e não ditos,não serão lidos no amanhecer de domingo,ele se despede com o seguinte aviso:
O amor (em excesso) mata.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Eu Te Amo - Chico Buarque,Tom Jobim e Paula Morelenbaum (participações especiais de Paulo Jobim e Danilo Caymmi)


Eu te amo - Tom Jobim / Chico Buarque

Ah, se já perdemos a noção da hora
Se juntos já jogamos tudo fora
Me conta agora como hei de partir

Ah, se ao te conhecer
Dei pra sonhar, fiz tantos desvarios
Rompi com o mundo, queimei meus navios
Me diz pra onde é que inda posso ir

Se nós nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas
Diz com que pernas eu devo seguir

Se entornaste a nossa sorte pelo chão
Se na bagunça do teu coração
Meu sangue errou de veia e se perdeu

Como, se na desordem do armário embutido
Meu paletó enlaça o teu vestido
E o meu sapato inda pisa no teu

Como, se nos amamos feito dois pagãos
Teus seios ainda estão nas minhas mãos
Me explica com que cara eu vou sair

Não, acho que estás te fazendo de tonta
Te dei meus olhos pra tomares conta
Agora conta como hei de partir.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

O Lado Escuro da Lua



Não me escreverá. Sei bem disso. O tempo corre, bem sei, o sono é curto,as ansiedades grandes, os sonhos pequeninos.Não levará tantas lembranças consigo. As circunstâncias permitem pouco. O que levar, e o que esquecer, só a mala e o coração poderão dizer. Chorar será necessário,mas,as malas que vieram antes, trouxeram o tempo de fim de maio, para fazer sua janela chover. A menina queria ir embora,mas para onde ir, a sua escolha não pode ter.Para onde escrever, o que ainda se permite, é guardado a sete chaves de flores de bem querer.Fuxico paraibanos, de quem sabe escrever.
Primeiro será o sono:Ela agora sonha,melancólica, a saída.Ela não lerá isso,estará entretida em seus últimos momentos de partida. O mar da Boa Viagem ira esperá-la descoberta. Se as nuvens cinzas permitirem,ela se sentará em algum canto onde a brisa da chuva e a reia molhada permitam reflitir o seu ser.As luzes da cidade de quem nem imaginava sentir falta se mudaram para não mais aparecer.O homem que desesperadamente já não será mais tão presente.As amigas no qual escreverá suas memórias.O filme da Cosa Nostra,a Máfia.É pena que a última vez tenha sido de dor.
Ao mesmo tempo,não irá embora.O percurso de ônibus,mudando a linha,será mantido.O curso de letras ficará,também ficará aqueles casos mal resolvidos por amar.As saídas esporádicas para desopilar.A passagem,as sobrinhas que crescem cada vez mais lindas.O morro da conceição,com as promessas e dívidas.Os quatro cantos de Olinda. A cidade antiga.O mar.A lua tão grande e bonita.A novela cujas páginas não lerá.E aquela que da TV acompanha assídua.É e ainda assim,estará presente.Distante.Presente.E assim,seremos adultos,como todos deveremos ser.Tão pertos,e tão distantes do céu.
Essa coisa de escrever,não pretendemos nunca sermos bons.Elas,as coisas se escapam em dedos,canetas,canção.Viram letras.Poemas.No qual nenhum corpo que beije,fique,transe,terá direito,até o dia em que se permite adentrar a alma do lado mais negro da lua,aquele lado que as palavras não alcançarão,que os abraços levarão como verão, cujo o amor o gato comeu,e que as cizas se espalhou...e que tal como o passarim do qual Tom Jobim me diz: Por que que eu não fui feliz?Cadê meu amor,minha paixão?Que me maltrata o coração?Que me alegrava o coração?Que me alegrava o coração...
As músicas já foram guardadas.As leituras adiadas.O fundamental não será esquecido.O caderno será mantido.O porta-retratos...nem sei se tem contigo.É,assim,já não posso,não quero parar.A distãncia será difícil,se perderá algo que nem será possível dimenssionar.Mas,ainda que seja dessa forma.Ainda que doa e que devesse ser considerado crime as progenitoras enlouquecerem primeiro que as filhas.A morte não será mais um gosto que irá dizer.preferirás outro.
O abraço,da irmã,da alma.Da vida.Sei dizer coisas,que não sei mais.Meu corpo não me obedece,e paralisias se tornaram até frequentes.Copos derramados,brigas,reconciliações.Até quando?Talvez só até o tempo em que esse texto seja soterrado,e apagado,em alguma página obscura de um site,de um quarto,vazio,e sem você.
Entretanto,lá,mais do que cá, a lua é mais bonita.Brilha a luz mais forte, o céu é opressivamente mais limpo que os homens.De alguma forma,é preciso fazer valer,isso tudo terá que ser bom,e se não for.A gente faz um jeito amigo,de ser amor.

sábado, 12 de maio de 2012

O Gênio,o ídolo e o lobo

A série de vídeos abaixo que posto essa noite trata de opiniões sobre a música de Tom Jobim,Chico Buarque e Lobão. No primeiro vídeo, a versão inacabada da música passarim, do qual Tom Jobim apresenta em seu antigo programa dedicado a música (o vídeo tem sua descrição abaixo),em seguida a versão final de passarim,seguida de um depoimento Chico Buarque e Tom Jobim,e uma entrevista de Lobão e sua opinião sobre Tom Jobim,Chico Buarque,Caetano Veloso e Gilberto Gil para o programa "Café Filosófico".Também tem um vídeo com comentários de Caetano Veloso a Lobão em um show.
Por fim,a íntegra da entrevista de Tom Jobim ao Programa Roda Viva,em 1993.
Bom Fim de Semana e feliz dia das mães. 

No último programa da série "A Música Segundo Tom Jobim", dirigida por Nelson Pereira dos Santos para a TV Manchete em 1984, o maestro mostrou uma canção àquela altura ainda inacabada, "Passarim". 

Ele usaria o tema instrumental como base para a trilha sonora que compôs para a minissérie "O Tempo e o Vento", que foi ao ar na TV Globo no ano seguinte. Só em 1987, a música ganharia sua versão definitiva na gravação que deu título ao álbum lançando por Tom naquele ano, inaugurando uma nova fase de sua criação musical, ao lado da Nova Banda.

Este post é uma homenagem a Antônio Carlos Jobim, no dia em que completaria 80 anos de vida.