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quinta-feira, 9 de junho de 2011

Nem tudo se pode ver, ouvir ou dizer, Por Betty Milan


"Seleção e contenção tornam a existência mais fácil quando vêm do desejo vital de opor às forças do inconsciente que podem nos fazer mal"

Um músico me escreve contando que pertence a uma grande orquestra, mas não tem prazer no trabalho por causa dos colegas. Não suporta o despotismo, a vaidade, a prepotência, a arrogância e a mania de grandeza de alguns. O convívio com "egos inflados" é demasiadamente peno, e ele me pergunta o que fazer.
Eu, que sempre faço a apologia do ato generoso da escuta, sugiro ao músico que faça ouvidos moucos. Lembro que ele tem o privilégio de escutar os sons mais sutis e sabe ouvir o silêncio. Não precisa dar ouvidos ao que não interessa. Inclusive porque egos inflados estão em toda parte e a luta contra eles não leva a nada. Evitar a luta de prestígio é um bem que nós fazemos a nós e aos outros.
Para viver, nem tudo nós podemos ver, escutar ou dizer. Isso é representado, desde a Antiguidade, pelos três macacos da sabedoria. Cada um cobre uma parte diferente do rosto com as mãos. O primeiro cobre os olhos, o segundo as orelhas e o terceiro a boca. A representação é originária da China. Foi introduzida no Japão, no século VIII, por um monge budista. A máxima que ela implica é "não ver, não ouvir e não dizer nada de mau". Foi adotada por Gandhi, que levava sempre consigo os três macaquihos, o cego, o surdo e o mudo - Mizaru, Kikazaru e Iwazaru.
Eles ensinam a não enxergar tudo o que vemos, não escutar tudo o que ouvimos e não dizer tudo o que sabemos. Noutras palavras, ensinam a selecionar e a conter-se. Isso é decisivo para uma atitude construtiva, mão não é fácil. Somos impelidos a focalizar o que nos prejudica - impelidos por um gozo masoquista ao qual temos de nos opor continuamente. Só a consciência disso permite não sair do caminho em que a vida desabrocha.
Seleção e contenção tornam a exist~encia mais fácil. Desde que não sejam um efeito da repressão, como na educação tradicional, e sim do desejo do sujeito - um desejo vital de se opor as forças do insciente que podem nos fazer mal.Isso implica a humildade de aceitar que o inconsciente existe e nós não somos donos de nós mesmos.
A idéia não é nova. Data da descoberta da psicanálise por Freud, no fim do século XIX, mas continua a ser ignorada porque é difícil nos livrarmos do ego. Sobretudo numa sociedade como a nossa, que tanto o valoriza, e que não condena a vaidade, a prepotência e a arrogância. Pelo contrário, estimula-se a perpetuar.
A psicanalista e escritora Betty Milan assina a coluna Consultório Sentimental em Veja.com. Uma vez por mês, ela publica em Veja um artigo especialmente escrito para a revista impressa.

Acompanhe a coluna de Betty Milan em www.veja.com/bettymilan
Milan, Betty. Revista Veja, edição 2199, ano 44, nº2, Editora ABRIL,12 de janeiro de 2011, p.92.
Veja também: O desafio da fidelidade, por Betty Milan

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